Rock in Rio 2022

g1 – Roberta Medina, que é vice-presidente do Rock in Rio, tem falado em entrevistas que não se faz política em cima do palco de festivais como esse. O que você acha disso?

Emicida 

“As pessoas se conectam com a nossa arte pelo que a gente significa, pelo que a gente cria artisticamente, mas também pelo que a gente sonha para nós e para o mundo.”

Nesse sentido, eu acho que não tem nenhum campo da nossa produção artística que não toque, de alguma maneira, numa questão política. Eu não acho que o palco seja uma bolha ou que a vida dos artistas seja uma bolha. Os artistas não caíram de Marte, entende? O não posicionamento político, por si só, já é um posicionamento político. Eu não posso viajar para a Palestina, fazer uma selfie da minha cara e dizer que não me conecto com questões políticas. O meu silêncio também se transforma num manifesto.

Eu, particularmente, não concordo [com a opinião de Medina]. Graças a Deus, as pessoas sabem o que eu significo, sabem no que eu acredito, pelo que eu luto. Entendo que o festival também sofre pressões de outros universos e acho que eles tentam se posicionar de uma maneira mais neutra, o que também acredito ser legítimo, mas não é uma expectativa que se deva ter com relação aos artistas. E eu nem estou falando só dos artistas que concordam comigo. Arte é arte e nosso posicionamento precisa ser livre.

g1 – Esse Rock in Rio, pela proximidade com a eleição, será diferente de alguma forma?

Emicida – No Lollapalooza, no começo do ano, a energia já estava daquela maneira [a edição de 2022 do festival foi marcada por manifestações políticas]. É impossível você juntar 100 mil pessoas e querer que aquelas 100 mil pessoas não exerçam seus direitos cívicos. Isso é um direito do cidadão mesmo. E é um desejo também, um sonho.

O Brasil tem um sonho de produzir dignidade, se perde em mil caminhos para alcançar esse sonho, mas continua caminhando. E, se tem uma coisa que tem ficado cada vez mais sublinhada, é que [o presidente] Bolsonaro é o oposto de tudo de digno que a gente pode sonhar nesse lugar.

g1 – Já é possível fazer um balanço dos danos que foram gerados pra cultura no período de pandemia?

Emicida – Eu acho que ainda não. A euforia do momento que estamos vivendo não permite que a gente faça essa análise pragmática de como se encontra o mundo cultural. Mundo cultural, que foi muito atacado inclusive pelo que ele significa, pela capacidade dele de fazer as pessoas imaginarem como o mundo pode ser diferente.

A gente ainda não fez uma leitura do panorama de terra arrasada em que a gente se encontra. Quantas casas fecharam? No Brasil e no mundo, foram fechadas instituições que estavam abertas há 50, 100, 300 anos. Esse tipo de coisa é uma grande perda e muda o caráter cultural de algumas regiões.

A gente vai ter agora uma temporada de vários eventos. Depois, vamos pular para o verão e emendar no carnaval. Talvez, depois do carnaval do ano que vem, a gente possa ter uma leitura mais precisa disso.

g1 – Você foi um dos primeiros nomes do rap a ser incluído na programação de grandes festivais e hoje vê o gênero ganhar cada vez mais espaço nesses eventos. Além da qualidade dos artistas, ao que atribui esse movimento?

Emicida – A um grande esforço coletivo.

“Foram quatro décadas, quatro gerações ouvindo, de uma maneira pejorativa, que o rap era uma moda. Mas não existe nenhuma moda que dure quatro décadas.”

É uma grande conquista ter feito parte dessa construção. Eu só acho que as gerações que vêm depois da nossa precisam se concentrar na magia dessa construção coletiva. Isso propiciou que tantos artistas do rap estejam nesses palcos, circulando pelo Brasil e pelo mundo. É importante que as próximas gerações se concentrem em dar continuidade a isso. Se eu posso ser meio tiozinho agora e dar uma orelhada, minha orelhada é essa: mantenham a chama acesa, joven

g1 – Você acha que hoje dá para dizer que os festivais são equilibrados em termos de gêneros musicais?

Emicida – Acho que não. A gente acabou de tocar em Belo Horizonte, no festival Sarará, e lá teve uma coisa que me emocionou muito. Quem tocou antes da gente foi o Zeca Pagodinho. Eu até me emocionei, invadi o palco para ver o show do Zeca. A gente se divertiu para caramba.

Mas olha que coisa louca: em todos esses anos participando de tantos festivais no Brasil, foi a primeira vez que eu vi um artista como Zeca no mesmo line-up que a gente.

“Não ter o samba no line-up dos grandes festivais é algo que me frustra bastante. Não ter o samba nas listas de melhores discos do ano — isso acontece com muita frequência — me frustra muito.”

Essa é uma das conquistas que a gente ainda está a produzir, a alcançar. Eu fico muito feliz de ser parte dessa conquista. Quando a gente declara nossas influências, como o samba é presente na nossa construção, como ele é uma forma de viver, como ele tá sólido dentro da nossa música, a gente abre espaço para que esse tipo de encontro aconteça ao vivo. E para que as pessoas passem a pensar cada vez menos no gênero, No final das contas, o que todos nós somos é isso: operários da música.

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